Senta aí. Precisamos conversar sobre a Pabllo Vittar

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Créditos: Avon Brasil

Eu não sei vocês, mas eu chorei com a campanha Loucas Por Cores da Avon. Em dias sombrios para nossa democracia, a visibilidade para as questões de gênero, representadas na pessoa (LINDA) da Pabllo Vittar fez meu coração saltar algumas batidas. Ainda estou tentando lidar com tanta sensibilidade e beleza. VAI TER RESPEITO SIM.

Não vou mentir, eu não sabia muito sobre a Vittar até as aparições no Vlog do Povo, da Drag Ravena Creole – que é a Drag do Povo “tudo na vida de Patrícia” e a Diva da minha life- mas uma coisa foi puxando a outra, e a sonoridade emanada pela Pabllo tratou de me levar até o humor ácido das suas músicas e me convidou a sair da zona de conforto. Precisamos falar sobre cultura Drag, identidade de gênero com suas construções e desconstruções.

Em dias de descortinados debates sobre a PLC 122, além do recente decreto presidencial que possibilita o uso do nome social de mulheres e homens trans no serviço público, trouxe à tona, além dos debates validos, o preconceito, fundamentalismo e ignorância de uma sociedade heteronormativa e arraigada a valores misóginos.

Precisamos ser didáticos em meio a tanta desinformação. Falar sobre identidade de gênero requer cuidado, sensibilidade e RESPEITO. A identidade de gênero faz referência a como nos reconhecemos dentro dos padrões de gênero estabelecidos socialmente, enquanto a orientação diz respeito a quem nos relacionamos, romanticamente e sexualmente. Para pensar em identidade de gênero é necessário o desprendimento do conceito binário heteronormativo -homem e a masculinidade, mulher e feminilidade- que é uma valoração datada, tendo em vista as múltiplas experiências humanas.

Como historiadora tenho que observar também os aspectos de construção e desconstrução dos conceitos. A banalização que os fundamentalistas tentam promover é uma ação criminosa. Imaginem, o Brasil tem um dos maiores índices do mundo de crimes causados pela transfobia e mesmo assim o que se discute no Congresso nacional, por meio de sua bancada fundamentalista, é que o Movimento LGBT quer privilégios. Senhores deputados, privilegio é não pagar imposto e empurrar na goela alheia o criacionismo. O que nós, enquanto movimento, queremos é respeito.

Recentemente li os trabalhos da professora Lisa Duggan, em seu livro Sapphic Slashers, e do professor Jack Halberstam- que em seu livro Female Masculinity ainda assinava como Judith-  e o mundo parece ter girado na minha cabeça. Meu pai Tiago me presenteou com essas obras no Natal do ano passado e acredito que ele estava me passando um recado. Acho que ele apenas observava silenciosamente as minhas transformações diárias. E para Lisa e Jack, de forma que permeia suas obras, fica muito claro essa fluidez humana dentro das identidades de gênero.

Em tempos de Rupaul e Netflix, a cultura Drag tem ganho visibilidade. Amém. A arte da montação e as performances trazem para a cara da sociedade o empoderamento de homens e mulheres – sim!!!! Existe os Drag Kings- que extravasam as discussões de gênero e fazem a linha de frente na luta contra o preconceito. As Drags não são bagunça, respeite as manas e os manos.

Então, a Pabllo Vittar é uma delas. Ativista pela visibilidade trans e na luta contra a transfobia, a Vittar é o Eu bafonico de uma figura linda e com uma voz cativante quando canta suas letras cheias de acidez e empoderamento. Assim como a Ravena, Vittar é nordestina- se é que as Drags têm CEP. Elas são do mundo- e joga pedra nesse vidro chamado paradigma. Estou aqui escrevendo e ouvindo Rainha. De fato, “a diva chegou e vem trazendo a sua gang”. O exemplo disso é o Canal Drag-se, no Youtube, onde Drags do Rio de Janeiro mostram seu cotidiano em vlogs, apresentam tutoriais de make-up e divam…divam muito! Ravena, Chloe, Padora e suas manas precisam ser vistas. Drags são o poder. A quebra de paradigmas que a Pabllo nos traz já começa pelo nome. Utilizar seu próprio nome “pessoa física” para performer é tão desconstrutor… Rupaul já nos ensinou isso.

Estou in love com o trabalho dela e com sua figura humana. Pessoas que carregam em si toda a força de um movimento merecem todo o respeito do mundo. Eu poderia aqui me curvar diante de várias delas, mas esse texto ficaria para além da conta.

Em seu EP, a Pabllo trouxe a sagacidade de suas letras e uma mixagem, comandada por Dj Gorky, que ousa no sample e traz a batida do samba e do pop. Quem nunca se quebrou dançando Open Bar não vai para o céu. A promessa de um álbum ainda para esse primeiro semestre me deixa ansiosa para ver qual será a lacração da vez. A mesma já disse que vai ter participação de Rico Dalasam, o que já mostra que vai ter representatividade sim, e muita!!! Os Vittalovers têm a representação de uma figura forte e divônica. Como ela mesmo diz na letra de Rainha, ela veio para ficar. Que ela fique e que mais Drags, mulheres e homens trans, homens e mulheres cis homossexuais e assexuais também fiquem, ganhem visibilidade e façam muito barulho. Se a transgressão de valores dessa sociedade putrefata em que vivemos é o meio de trazer os olhos para nossa comunidade, então vai ter lacração das beesha SIM! Eles vão ter que nos ouvir.

Obrigada Pabllo, obrigada Ravena, obrigada as Drags que me jogam pra cima mesmo que não saibam disso. Vocês não empoderam apenas as montadas ou que sonham em se montar, vocês também trazem um sopro de vida e esperança para essa beesha aqui, toda montada nas emoções. Obrigada pela sensibilidade extra que vocês trazem para dentro do movimento.

 

O artigo é de total responsabilidade da autora e não representa necessariamente a opinião do veículo.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Sool Vaz disse:

    Precisamos falar dessas manas sim! Sentar e conversar, derrubar paradigmas, descontruir essa imagem estereotipada e preconceituosa das Dreg’s.. Precisamos levantar esse debate para o público e mostrar que RESPEITO é a palavra de ordem! Belo texto, Alice!! 👏👏👏👏

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