PRECONCEITO| Quando Rihanna jogou a hipocrisia na nossa cara e nós ficamos sem ar

riri
Fonte: Divulgação

Ferguson, Missouri, 9 de agosto de 2014. 6 tiros. Um corpo no chão. Um covarde de pé. 50 anos de luta pelos Direitos Civis estirados no asfalto frio de um chão qualquer. Os sonhos do Reverendo King ainda não se concretizaram. Foi Michael Brown, mas poderia ser qualquer menino da Zona Leste de São Paulo, dos morros do Rio de Janeiro e da periferia de Recife. Porque como já diria Elza Soares, “a carne mais barata do mercado é a carne negra”.

O preconceito aos afrodescendentes está aí, escancarado para todo mundo ver. Mas até quando ele será minimizado e silenciado? É por isso que ficamos sem ar ao assistir o vídeo da música American Oxygen. Rihanna deu um soco no nosso estômago e ficamos sufocados por nossa hipocrisia.

A música é composição da própria Riri em parceria Alex da Kid, Candice Pillay e Sam Harris, e produzida por Kenye West e Alex da Kid. Mas pode ter certeza: o impacto da canção vem acompanhado pelo videoclipe. Quem ouve apenas a música e está desavisado, pode pensar que é uma canção bem nacionalista e exaltando o American way of life. Sabe de nada, inocente.

O videoclipe é uma compilação de imagens e vídeos, que jogam com a arma da História: mudanças e permanências. Imagens da luta pelos Direitos Civis na década de 60 se misturam com as recentes manifestações contra as mortes de cidadãos negros norte-americanos em crimes veladamente executados pelo ódio. Rihanna (que, só para lembrar, não é norte-americana – é barbadense) aparece em meio ao símbolo máximo do orgulho yankee. Imagens de pessoas que tentam entrar ilegalmente nos EUA para tentar a vida prometida por Hollywood e pela estátua da Liberdade são contrapostas com os milhares de sem-teto que são a dura realidade do panorama das grandes cidades dos Estados Unidos. É como colocar o dedo no buraco da bala.

Em terra Brasilis as coisas seguem a toada. Os novos ferros de marcar negro são os canos de pistola da PM. Isso é algo duro para assumir, pois cresci em meio ao paradoxo de pai sindicalista e mãe militar. Além disso, eu nunca sofri preconceito por conta da cor da minha pele. Eu não sei o que é entrar em uma loja e ser seguida, ou não ser atendida por conta da minha cor. Mas já ouvi relatos o bastante para afirmar que o preconceito contra os afrodescendentes existe – para os que acham que é MIMIMI – e é institucionalizado.

O enraizamento do preconceito está nas chacotas, nas “brincadeiras” do cotidiano, no andar do segurança que segue o menino negro dentro do supermercado, quando você esconde o celular ao ver um jovem negro se aproximar de bicicleta. O preconceito está nos genes dessa sociedade patriarcal.

Tudo que esteja diretamente ligado a nossas raízes afro também carrega rotulação negativa. Tente explicar a crianças de um 7º ano do Fundamental II sobre nossas raízes centro-africanas, iorubá e as reminiscências e ressonâncias do Império do Mali…  Esse ano eu morri de orgulho, pela primeira vez uma aluna falou abertamente sobre a religião da família e relatou que seu avô era um Babalorixá. Eu senti a realização na forma do empoderamento daquela aluna.

No final das contas, sabemos que o balanço negativo sempre vai pesar para a periferia. Os ferros das pistolas nunca poderão matar a alma da negritude. A Zona Sul fecha os vidros dos carros, blinda suas latarias, “foge” para os sítios e chácaras, queima o sinal para não ter que lidar com o menino negro que limpa o vidro do seu carro por uma moeda fria. Mas eles nunca poderão fugir do sangue da juventude das favelas que eles tentam condenar à marginalização. Vai ter luta, vai ter orgulho, vai ter afrodescendente se formando em medicina. Os podres poderes choram de ódio, mas os gritos das senzalas reverberaram e se tornaram a força que tira o negro da favela e o coloca na universidade.

O artigo é de total responsabilidade da autora e não representa necessariamente a opinião do veículo.

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