25.05 Dia do Orgulho Nerd ou Dia do Clube do Bolinha?

Como todos sabem (quem não sabia agora, bem, já sabe) hoje é o dia do Orgulho Nerd ou da Toalha. A data “foi escolhida para comemorar a première do primeiro filme da série Star Wars, o Episódio IV: Uma Nova Esperança, em 25 de naio de 1977, mas divide o mesmo dia com dois outros feriados de fãs semelhantes: o Dia da Toalha, para os fãs da “trilogia de cinco” O Guia do Mochileiro das Galáxias, em homenagem ao seu escritor Douglas Adams, e o Glorioso 25 de Maio para os fãs da série Discworld, em homenagem ao seu escritor Terry Pratchett”. Resumindo: é o dia que uns nerdão passeiam com toalhas, camisas, tiram foto com action comic e postam (sim, agora eles possuem rede social).

Falo nerdões porque, afinal, qual estereótipo de nerd que nos vem a cabeça a partir – ou não – dos padrões de beleza e mídia? Um garoto gordo, hétero, que sofre perseguições na escola, leva uma toalha e hq pra cima e pra baixo, conversa com outros nerdões e sonha com uma garota -magra, peituda, que usa óculos sensual- gostar das mesmas coisas que ele, mas, ela não pode ter vontade própria e preferir Batman do que a Mulher Maravilha, ela é mulher, então têm que se contentar com o que é de mulher.

Se contentar com o que é de mulher. Quem é mulher (partindo da prerrogativa que não se nasce, torna-se), já ouviu esta máxima muitas vezes durante a vida e ainda ouvirá muito mais, ela está nas pequenas coisas desde o “rosa é de menina e azul é de menino”, “senta direito, menina”até “esse jogo é de menino (Mortal Kombat), esse aqui é pra você (Jogo de make da Barbie)”. Se contentar com o que é de menina é difícil pra quem, simplesmente, não gosta dessas coisas de menina. E esse texto de hoje, que saiu tarde eu sei, é sobre não se contentar com esse “lugar de menina” que o mundo Nerd tragicamente tem nos colocado. Hoje não é dia de comemoração, porque ser Mulher e Nerd parece ser impossível em dias que quando queremos nos sentir representada, e quando isto é reivindicado, somos colocadas como feminazzi mimimi.

Nós não nos contentamos com apenas 7% dos principais filmes de Hollywood serem dirigidos por mulheres.
Nós não nos contentamos em ganhar menos do que atores parceiros nas mesmas obras.
Nós não nos contentamos em acharem que não estamos em grandes produções porque simplesmente não queremos, não é culpa do produtor, nos disseram, é culpa da Empresa. QUEREMOS QUE A EMPRESA MUDE TAMBÉM.
Nós não nos contentamos em participar de alguma produção, seja filme; série; hq; clipe-arte; etc, para completar a “cota de mulheres”.
Nós não nos contentamos com a forma que estão colocando a Arlequina nos trailers do Esquadrão Suicida, na verdade, para início de conversa, nós repudiamos a forma em que essas mesmas personagens são vestidas seja nos quadrinhos e nos filmes – para agradar homens.
Nós não nos contentamos com a forma de representação de personagens em história em quadrinhos onde a Coluna da personagem pode ser quebrada para aparecer seu peito e bunda ao mesmo tempo.

Nós não nos contentamos quando mudam a roupa da nossa personagem favorita porque atende o esperado pelo fãs (leia-se homens leitores), mas a personagem é feminina e teoricamente o público alvo seria as mulheres. Nos EUA somos 43% do público leitor de quadrinhos e tenho certeza que no Brasil somos bem mais.
Nós não nos contentamos quando homens, nerds, fazem a comparação entre a sexualização masculina (sem camisa ou de costas sem camisa) com a da mulheres (posições ginecológicas, nu frontal ou completo, gestos e falas vergonhosos, sexualidade exagerada).
Nós não no contentamos com apenas 2 filmes da Saga Star Wars serem protagonizados por mulheres, QUEREMOS UM UNIVERSO!
Nós não nos contentamos quando séries que nos inspiram a serem mulheres independentes, destemidas, são canceladas.
Nós não nos contentamos quando séries que têm tudo para serem um tapa na cara da sociedade, abordando preconceito, racismo, machismo e misoginia, são simplesmente adaptadas para o cômico e acaba sendo só mais um “engraçadinho”.
Nós não nos contentamos em sermos lambidas em eventos quando fazemos cosplay, odiamos quando, estamos de cosplay; casual cosplay, e na rua/eventos, nos chamam de gostosa. Deixa eu te falar: Não é porque está numa série ou filme, onde o protagonista faz isso e ganha a mocinha em perigo que você deve fazer, isso é um ABUSO, e se for com uma de nós, você pode mesmo ir preso (ou não, porque na delegacia podem rir de nós).
Nós não nos contentamos sermos desconsideradas porque somos 52% dos jogadores de games no país só porque os homens não conseguem admitir que perderam a supremacia.
Nós não nos contentamos em sermos tratadas como uma aberração na loja de quadrinhos, e não nerds, não estamos disponíveis pra vocês só porque gostamos das mesmas coisas. Sabe, pra vocês também serve: não é não.
Nós não nos contentamos com personagens mal utilizadas em jogos (tipo LoL) e com roupas que não protegem em nada e quando reclamamos, somos, mais uma vez, taxadas de feminazzi mimimi. Olha, a gente vai continuar reclamando porque somos nós que jogamos.
Nós não nos contentamos com estupros sendo retratados em filmes, séries e quadrinhos com a desculpa de “é fantasia”; “no período Medieval era assim”, “mas é só uma série, ninguém vai fazer isso”. Querido, estamos falando de fantasia e são consideradas assim porque são distantes da nossa realidade. Então, por qual motivo tem que ter mulher apanhando e sendo submissa a quase todo momento? Olha, você sabe quem é Killgrave e o mal que ele faz a Jessica Jones? Você sabe que quando esses crimes são reproduzidos nas mídias cada vez mais se tornam normatizados na sociedade? Primeiro começa com um “você é linda ou gostosa” ou qualquer outro tipo de abuso verbal na rua, depois, pode sim, virar um abuso sexual, crime por ciúme ou OUTRO CRIME. Hoje, dia 25, no Rio de Janeiro, uma garota foi estuprada por 30 homens, trinta, T R I N T A   M O N S T R O S. Você acha que algum deles percebeu que o que estava fazendo era crime ? Alguém se importou com as consequências na vida da garota? Muitas vezes os quadrinhos também retratam essa forma brutal de crime. As hq’s, como a mídia brasileira, não explicitam a palavra estupro. Nós passamos a página sem entender direito o que houve alí, se a gente não criticar, não ir atrás, vai acabar achando que foi um possível estupro. Como Barbara Gordon em A Piada Mortal e a vítima de ontem. Sabe, a Barbara se recuperou, ela voltou a ser a BatGirl, e a garota de ontem ? – me recuso a chamá-la de menina estuprada do RJ, ELA É MUITO MAIS QUE ISSO. Ela não têm super poderes, poderia ser qualquer uma de nós. E NÓS NÃO NOS CONTENTAMOS COM QUALQUER TIPO DE CRIME!

Então, nerd, homem, ou qualquer pessoa que achou um absurdo todos esse exemplos – que infelizmente eu não os inventei. O dia do Orgulho Nerd, pode ser só para vocês. Nós não temos muito para comemorar. A representação feminina vem sido tratada de uma forma mais ampla nas produções, temos  a Rey, Diana (Mulher Maravilha), Kamala Khan (Miss Marvel) e tantas outras que nos representam, queremos ver diversidade, lembra do rebu que deu quando a Selina Kyle (Mulher Gato) beijou a Eiko? E a Arlequina com a Hera Venenosa? Foi lindo, mas por causa do mimimi dos homens, eu tenho o pressentimento que virá uma revista e apagará tudo que lhe antecedeu. Espero mesmo que isso não aconteça. Queremos mais espaço, não por favor, mas por valor. Estamos produzindo, escrevendo, ilustrando, roteirizando, produzindo. Queremos aparecer sim, levar nosso trabalho. Quebrar estereótipos. Não somos as garotas lindas, sem imaginação, que só concordam com sua opinião. Nós somos quem está desenvolvendo esses games que você joga, roteirizando e ilustrando as hq’s que você lê, editando os filmes que você assiste e não se contentando com sua misoginia e machismo.

Nota: Se você não concorda comigo, tudo bem, estamos sempre abertas para um diálogo, mas se você acha que isso não acontece, que é tudo exagero, clique nos links e também, venha conversar conosco.
Percebemos que o mundo Nerd é muito restrito a meninos, e esses, por várias vezes agem de forma machista, homofóbica, misógina. Vamos fazer um teste rápido? Vamos.

1º) Ontem, dia 25.05, em alguma imagem sobre a comemoração do dia do Orgulho Nerd, você viu alguma personagem feminina sendo retratada na imagem principal?
2º) Viu algum site fazendo listas de como você pode adquirir produtos com alguma mulher sendo escritora ou ilustradora?
3º) Quando uma menina usa a mesma camisa que você – do seu super herói ou filme favorito-, você pensa em falar com a menina dizendo: que tem uma camisa igual e inicia uma conversa sobre o personagem; chama ela de poser; acha legal o fato dela gostar da mesma coisa; ou faz testes pra saber se ela gosta mesmo ou está usando só para aparecer?
4º) Quantas obras, escritas e visuais, você gosta e têm mulheres na produção técnica, artística ou interpretativa?
5º) Se você tem uma parente, amiga, ou conhecida e ela diz que quer ler mais sobre quadrinhos, jogar ou ilustrar, você a incentiva?
6º) Você compartilha nas redes sociais ou de amigos trabalhos femininos, que segundo seu gosto, são de boa qualidade?

Não queremos que você fale todas as coisas que as mulheres fazem simplesmente por serem mulheres. Você compartilha o que gosta. As mulheres também têm trabalhos super bacanas, mas são afastadas. Nós queremos – mais uma vez dizer – que estamos fazendo o que os homens também fazem, e queremos as mesmas oportunidades.

O artigo é de total responsabilidade da autora e não representa necessariamente a opinião do veículo.

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