REPRESENTAÇÃO | Se tem uma diretora no filme solo, por que não uma desenhista nas HQ’s da Mulher Maravilha?

Hoje soube de duas coisas envolvendo a Mulher Maravilha e muita gente pode não ver relação, mas eu sim. A atriz que interpretará a guerreira amazona no cinema pela primeira vez, a Gal Gadot, deu uma entrevista para a Entertainment Weekly e revelou “Acho que só uma mulher, que foi uma menina, pode ser capaz de contar a história da maneira certa”. A atriz está falando da diretora Patty Jenkins, que está dirigindo o longa. A outra notícia foi que o desenhista, Frank Cho, deixou de ser capista das variantes da WW no selo atual, onde foi contratado para fazer 24 artes da revista e fez apenas 6. O motivo da saída: o roteirista Greg Rucka, afirmou que a capa em questão estaria muito “vulgar” e aparecendo “muita pele”.
Certo, qual a relação em tudo isso? Vamos por partes.

Gal falou mais sobre a importância de Jenkins como diretora do longa:

“É uma história sobre uma menina se tornar uma mulher”[…] Acho que só uma mulher, que foi uma menina, pode ser capaz de contar a história da maneira certa.”

“Toda a minha vida eu tenho trabalhado com diretores do sexo masculino que eu realmente gostei. E eu tenho sorte que eu trabalhei com homens que respeitam as mulheres. Mas trabalhar com uma mulher é uma experiência diferente. Parece que a comunicação é diferente. Falamos sobre emoções. Com Patty, é uma coisa nova, nós nos comunicamos com nossos olhos. Ela não precisa dizer nada. Se eu estou ferida, ela sente a dor. É uma conexão totalmente diferente que eu tenho com ela. Ela também é brilhante, ela é brilhante, ela é feroz, ela está afiada. Ela sabe exatamente o que a ‘Mulher Maravilha’ é “.

“Durante muito, tempo as pessoas não sabiam como abordar essa história. Quando Patty e eu tivemos nossas conversas criativas sobre a personagem, percebemos que Diana pode ainda ser uma mulher normal, com valores muito elevados, mas ainda uma mulher. Ela pode ser sensível. Ela é inteligente, independente e emocional. Ela pode ficar confusa e perder sua confiança. Ela pode ter confiança. Ela é tudo. Ela tem um coração humano “.

Acho que nem precisa falar o quanto a história da Mulher Maravilha é importante, além da  luta em prol do feminismo, a MM é uma das maiores personagens femininas na Cultura Pop. Sua influência foi retratada na origem de outras super heroínas e é exemplo para várias gerações ao longo do tempo. Mesmo com as críticas em BvS, foi um consenso sua popularidade e sucesso na sua primeira aparição nas telonas. Essa importância não deveria ser diferente na produção de seu filme solo. É de senso comum a ideia de que as  mulheres precisam ser melhor representadas no cinema e já falamos o quanto é importante a presença das mulheres por trás das produções também. Diante  das afirmações de Gal, só fica mais claro o quanto o cinema tem a ganhar com mais mulheres em suas produções. A maioria esmagadora de produtores e diretores são homens, e mesmo com as mulheres apresentando um trabalho excepcional, muitas vezes não são contratadas, pois a editora ou produtora prefere um nome mais conhecido do público, que geralmente é um homem. Pra você entender melhor a relação, é como se você estivesse no ensino médio e precisa de um estágio. Geralmente as vagas são pra quem tem experiência de 6 meses ou 1 ano, e o pré-requisito é estar no ensino médio. ¯\_(ツ)_/¯  Sacou? Acontece parecido com as mulheres em todo o mundo, ainda tem o lance da brodagem e sim, muito machismo.

Aqui temos a ponte para o próximo assunto, a demissão de Frank Cho. Em entrevista para a Blending Cool, Cho estaria sendo censurado por seu trabalho por Rucka, pois “todos amam” seu trabalho.

“Eu tentei levar tudo numa boa, não causar encrenca e dar meu melhor nas capas, mas a agenda política esquisita de Greg contra mim e minha arte tornou o trabalho impossível, […] ‘Wonder Woman’ é a ÚNICA razão pela qual eu vim para a DC.”

“Eu só queria fazer minhas capas variantes em paz, mas Greg Rucka está decidido a controlar tudo hostilmente, causando discordâncias desnecessárias.”

Um santo esse Cho, não é mesmo? Não.
Essa é a capa variante em questão:

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Há uma campanha na Internet que dividiu o mundo dos quadrinhos norte americano, seja a favor de Cho ou de Rucka.

Cho alegou que a mesma imagem está no miolo da revista e está sofrendo perseguição pessoal. Onde vimos isso? Sim, no caso entre ele e Manara. Cho já protagonizou muita coisa que o Collant sem Decote falou aqui .

Não vamos entrar no mérito se a capa mostra muita pele ou não pois o que merece questionamento, e até tardio, é o uniforme da guerreira amazona pro BvS e na hq. Seguindo a mesma linha, infelizmente, o mesmo uniforme. O que quero falar é, será que já não passamos da hora em termos uma desenhista no selo da MM?

No início dos Novos 52, a super heroína foi alvo de uma polêmica com suas roupas. A primeira imagem promocional do selo, ela estava de calça, e mesmo o público alvo da revista sendo feminino, removeram a calça e colocaram o “short”. Muitas mulheres, inclusive a que vos fala, demonstraram a insatisfação. Nada adiantou. A calça não voltou. E você pode até pensar “mas não tinha nada a ver a calça com a personagem”. Nop. A calça encaixou com o perfil da MM no momento inicial da revista. Segura, independente, responsável e mais que tudo: uma guerreira urbana. (uma coisa legal desse momento é a quantidade de roupas que a MM usa, ela troca muito para se disfarçar e todos seguem a linha urbana style)

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Depois da convergência, os artistas foram substituídos e o visual da maiorias dos personagens foram alterados. Com Diana não foi diferente. Tivemos uma armadura que cobria o corpo inteiro e estava maravilhosa. Quem acompanhava o quadrinho sabe que ela passou a ser a Deusa da Guerra e a armadura, para mim, mostrava o poder que este título exercia sobre ela e ao mesmo tempo, o quanto ela se reprimia no paradigma entre promover a paz e ser a personificação da Guerra. Essa “crise” não foi explícita, era subentendida. Talvez o momento que ficou mais claro o tamanho da responsabilidade invertidas nos títulos da MM foi a volta da importância de Zeke na trama, trazendo Dona Troy e a Deusa da Paz, que levanta os questionamentos entre paz e guerra para Diana.

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Atualmente, a revista de Diana está no Rebirth da Dc. Rebirth acontece após de Action Comics e que mexeu com todo o universo da editora. Para Diana o uniforme é igual ao que já foi apresentado no cinema e é apresentado nas HQ’s. Ele é curto e de fato, a boobie plate e saia curta não protegem nada.

Wonder-Woman-Rebirth-capa.jpg

Por mais que seja um material muito bonito, nos faz pensar até onde o curto da MM pode ir. Claro, não reprimimos ninguém por roupa. Roupa não define caráter de ninguém. O que falo é no sentido de analisarmos melhor os uniformes das personagens femininas. Elas não escolhem seu próprio uniforme. Não podemos achar que ele é feito para inspirar mulheres, infelizmente não é assim. Os uniformes são desenhados por homens, pensado para homens e satisfazer homens, não para o público alvo.

Tanto a roupa quanto a personalidade, origem e uso da Mulher Maravilha terem mudado ao longo dos anos, e mesmo adorando os mais tradicionais, não deixo de ver seus ideais nos atuais. Voltando a fala de Gal “só uma mulher, que foi uma menina, pode ser capaz de contar a história da maneira certa” (e entendido por mulher quem sentir-se ser uma), mais do que contar, é entender como uma mulher se inspira e inspira. Frank Cho tem uma oportunidade incrível e pediu demissão por alegar “perseguição”, mas quantas mulheres desenhistas não sonham em ser capista do selo da Mulher Maravilha? Não estou dizendo que uma desenhista irá mudar tudo e isso seria totalmente bom ou totalmente ruim. Estou afirmando que há muitas mulheres com potencial em ser capista, desenhista, roteirista ou diretora, o que falta são as oportunidades.

Falando em oportunidade, quando Gal fala sobre sua relação com Jenkins, nos lembra que tanto para o filme ou HQ, são muitas salas em que o produto passa até chegar em nossas mãos. A maioria dos cargos são de homens revisando algo que o público alvo não são eles. Por qual motivo falo isso? Não vamos esquecer que Zack Snyder participou do roteiro do filme solo e com certeza deu algum pitaco no uniforme da guerreira. Mesmo sendo Jenkins a diretora, o chamaram. Mesmo com seu usual filtro cinza me preocupando muito. Tiveram que chamar Snyder para escrever o roteiro junto com Jenkins, tipo, really?

O filme solo da Mulher Maravilha estreia em Julho de 2017 e a revista do Rebirth divide a edição mensal entre o Ano 1, mostrando Diana ainda garota em seu treinamento e os anos atuais, continuando os acontecimentos dos Novos 52. Este mês a nossa heroína faz 75 anos e em breve teremos posts sobre sua história ao longo do tempo. Muito provavelmente teremos, no dia 22, um trailer do longa na Comic Con em San Diego, EUA. Vamos torcer para que o trailer e filme seja o que precisamos da nossa super heroína. 

via: Bleeding Cool, Comic Book e Collant Sem Decote

 O artigo é de total responsabilidade da autora e não representa necessariamente a opinião do veículo.

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