HQ/CINEMA | Vamos falar da Arlequina

Faltam 24 horas para a pré estreia de Esquadrão Suicida no Brasil e vamos falar sobre a Arlequina.

Desde as primeiras imagens vazadas de Esquadrão Suicida, senti um frio na espinha quando vi os “closes” e a importância exacerbada com que estavam tratando a personagem. Tudo isso piorou com os últimos trailers, action figures e as críticas sobre o filme. Não temos tempo hábil pra falar de toda a história da Arlequina, mas vamos fazer um breve resumo.

A Origem e o Relacionamento Abusivo com o Coringa

Arlequina apareceu pela primeira vez no ano de 1992 em Batman: Série Animada. Criada por Bruce Timm e Paul Dini, Arlequina seria apenas uma personagem temporária para um episódio, “Um favor para o Coringa” mas ela caiu na graça dos fãs. Harleen Frances Quinzel era a melhor psicóloga do Asilo Arkham e foi direcionada a tratar do Coringa. Fascinada por ele, e vítima de manipulação, se apaixonou e passou por tortura psicológica, caiu no tanque de ácido (por isso a pele pálida) e começou a viver a vida loka ao lado do seu “pudinzinho”. Ela apanhava, era humilhada mas mesmo assim, nunca o deixou, mesmo sabendo que não era a única. 

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Em Mad Love, Arlequina sequestra o Batman e o Coringa não admite o feito. Bate nela, humilha e diz que ninguém pode fazer isso com o Batman além dele. Em 1999, no quadrinho Batman: Harley Quinn, o Coringa tenta matar ela por perceber que pode estar sentindo algo, mais uma vez, a Arlequina tenta se afastar por perceber que aquilo não é amor mas o Coringa sabe manipular, pede desculpa e tudo volta a ser como era antes. Esse círculo vicioso se repete em outros números até os novos 52.

Durante os novos 52 ela acabou o relacionamento com o Coringa (em Injustice também aconteceu isso, lá ele morreu) e atualmente, namora a Hera Venenosa (em Bomshells elas também se relacionam). O que aprendemos com isso? Romantizar relacionamento abusivo não cola, na hq e muito menos da vida “real”.

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Em Esquadrão Suicida mostrará essa trajetória da personagem, a relação dela e do Coringa e mais todo esse processo de manipulação, sentimento de inferioridade e até depressão que uma pessoa num relacionamento abusivo – se não for o opressor – pode sentir. Provavelmente ela apanhará dele (já vi teaser de parte da tortura) e passará por terror pisológico. O que espero com todas as forças ? Que no final do filme eles estejam separados como estão na HQ. Se eu quero que mudem a história original? Não! Quero que mostre tudo como foi, desde ela na faculdade até vivendo com ele loucamente, mas também quero que mostre como aconteceu a separação e como ela vive muito bem, obrigada, sem ele. Coisas da hq que além de adaptarem “melhor” a história no Cinema vai dar força a uma quantidade absurda de gente que passa por abuso no relacionamento e mesmo amando o parceiro ou parceira, podem ver que existe vida depois da separação.

Por que mostrar a origem para empoderar?

Lembra dos comentários da internet sobre o poster de X-Men? Lembra quantas pessoas, independente de serem mães ou não, se importaram em não querer aquela violência gratuita na frente das crianças? Lembram que elas falaram “eu não quero que meu filho cresça achando que bater em mulher é normal”? Lembram que era por se tratar de um material promocional e imagem isolada? Lembram também como as mulheres que sofriam violência doméstica se sentiram? Btw, vamos pegar esses exemplos e unir ao fato de que: AGORA VAI TER MESMO UMA PERSONAGEM FEMININA APANHANDO DO NAMORADO NO CINEMA e vocês querem simplesmente que isso soe como algo romântico? Como algo que devamos deixar pra lá e aproveitar o filme porque simplesmente a história é assim? Hmm, nop. Se a arte imita a vida, não podemos deixar que mulheres que sofrem com relacionamento vejam os horrores dessa situação como forma de entretenimento! Não é pra ser romântico, é pra ser horrível ver o Coringa batendo na Arlequina. Não é pra gente rir, é pra gente ver como é simplesmente inaceitável a situação de violência contra a mulher e torcer para que ela saia dessa no filme e as mulheres que passam por isso na vida real também!

As meninas do Collant sem Decote falaram da trajetória abusiva entre a Arlequina e o Coringa melhor que eu, mas o fator em comum é: representar para empoderar. Volto a dizer, quantas mulheres que não tem acesso ao quadrinho irão ver a Arlequina se separando do mau que é o relacionamento com o Coringa e VIVENDO! O mais importante da lição da Arlequina, com todo seu histórico, é mostrar que há uma outra saída sem humilhação, maus tratos e violência, física e psicológica para quem vive num relacionamento abusivo.

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Segundo este tumblr, a sequência de fotos mostra a Arlequina pensativa, em sequência tira o colar com o nome Pudim escrito e levanta com um sorriso (?), sem o colar e sem a jaqueta infame. Segundo a teoria, ela passou algo muito ruim provocado pelo Coringa e teve um momento de reflexão sobre continuar ou não sendo sua “propriedade”. Vamos esperar que seja verdade.

“Ah, mas ela é uma personagem, não existe”

Vocês precisam melhorar mesmo os argumentos. Quando foi pra falar da roupa dela, “ela é mulher, se veste como quiser” mas agora que temos uma chance pra representar uma coisa inaceitável que é um relacionamento abusivo vocês me veem com essa? Ela é uma personagem sim, e personagens não escolhem a própria roupa ou sua personalidade.

A Arlequina sofreu uma mudança drástica em sua trajetória, ao mesmo tempo que ela ganhou as graças do público, se viu como um alvo de punhetice para homens nerds que, simplesmente, acham que tudo é pra eles.

Lá e de volta outra vez: a roupa original da Arlequina.

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MAS O QUÊ? COBRE DOS PÉS A CABEÇA? EU NÃO ACREDITO!

Sim, cobre. E mesmo quando ela era Harleen não era sexualizada. Que pena, não é mesmo. (Ironia Mode On).
Eu podia falar mil e um motivos para a mudança, desde números de vendas até a Arlequina agora ter um número solo nos Novos 52, porém, eu não consigo não pensar que esteja relacionado ao problema do público alvo nos quadrinhos. A questão da venda de um quadrinho onde o público alvo é feminino e ele não é ouvido ainda está ligada na ideia da editora de que só homens consomem. E isso é um absurdo. Quando reclamamos ou reivindicamos que tal personagem tenha uma roupa que melhor se adeque ao seu propósito (Olá calça da Mulher Maravilha nos Novos 52), ou que queremos uma action figure da Alequina em que crianças possam brincar com ela, somos taxadas de mimizentas e aí vai. É triste viver numa sociedade assim, onde os padrões de consumo retiram todo um empoderamento que a história tem.

Um amigo me perguntou o motivo de não ter gostado da Action Figure. Eu simplesmente disse, “vei, a bunda dela está praticamente toda do lado de fora. Nem no filme é assim! E olha essa cara!”. As pessoas se esqueceram o que a Margot Robbie disse? Ela não se sente bem com a roupa da Arlequina do filme! Mas, cancela o público alvo, vamo fazer pra só macho comprar. E gente, essa coisa de só homem comprar os produtos promocionais já era. Ou vamos ter que lembrar da Rey e Viúva Negra?

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A Action Figure

A Representação da Arlequina em Esquadrão Suicida

Não iria falar do filme mas agora acho que é preciso. Como disse no começo do texto, desde o início a minha preocupação com a Arlequina em Esquadrão Suicida é  por sua hiper sexualização.
O problema não é a roupa, já sabemos que ela não escolheu, nem a Margot. Roupa não define caráter de ninguém! Dito isso, as mulheres que gostam de usar roupa curta se sentem representadas com a da Arlequina? Pode ser que sim. Eis que lhe pergunto: Elas iriam gostar de um close bem na bunda delas? Elas iriam gostar de trocar de roupa e todos pararem suas atividades e olharem pra elas sem roupa alguma (e isso ser engraçado)? Elas iriam gostar do simples fato de andar e todos olharem pra suas costas, sua bunda ? Elas iriam gostar de ser representadas sempre como gostosas sem cérebro? Eu acho que não!E se já não fosse a roupa muito diferente de todos os outros personagens, inclusive a Katana que está vestida da cabeça aos pés, tem o salto alto finíssimo. QUEM VAI PRA UMA BATALHA DE SALTO ALTO?

1º Trailer

O frame na bunda da garota… Meu Deus, qual a necessidade? UMA COISA: Não estou dizendo que não era pra ter imagem pra não ter aqueles gifs horríveis e comentários de homem nerd punheteiro sobre o corpo da Arlequina. A cena em si é problemática e pior do que a cena é esse tipo de galera. Mesmo se optassem por vê-la roubando agora, podia ser sem esse frame por trás. Essa foi a escolha do diretor pra posição da câmera com uma atriz que não se sente bem com a roupa e vocês continuam nessa merda? É só ver no trailer, a cena é desnecessária e se mesmo assim optassem por mostrar, seria muito mais interessante, a expressão dela como a Margot no dia do seu aniversário que passou no set de gravações do longa.

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Mesmo com toda a reclamação, outros trailers e teasers saíram. E o que percebemos? Eles queriam a Arlequina hiper sexualizada, sim!

No trailer que saiu durante a Comic-Con, tem uma cena da Arlequina sendo atacada no elevador. Ela mata o inimigo e é surpreendida por todo o esquadrão suicida esperando algum inimigo no lugar dela chegar no local. Pois bem, essa cena se repete em um teaser em que a Warner lançou destacando todos os personagens separadamente. Até aí, algumas pessoas podem simplesmente pensar que estão soltando muita coisa do filme e blá blá blá. O que chamou minha atenção e de muitas garotas e meninos também, foi o fato de que no trailer da CC o short da Arlequina está no tamanho normal dele, quase uma calcinha. No teaser solo, ele está maior. Tipo, encurtaram o short dela pra aparecer mais sexy enquanto todos da sala olham para a bunda dela.

Trailer Comic-Con

Teaser Solo da Arlequina

A diferença no short:

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Agora, vamos resumir o post:

A Arlequina foi criada apenas para um episódio de uma série, caiu nas graças do povo e hoje, deturpada por uma cultura machista e misógina, a maioria das pessoas e o diretor do filme, romantizaram seu relacionamento abusivo com o Coringa e no longa, onde ela teria um destaque – o primeiro filme da DC com personagens femininas no comando, tipo Amanda Waller (interpretada pela magnífica Viola Davis) e a própria Arlequina – em seus trailers ela é mostrada como a gostosa sexy que só fala besteira.

Até quando irão romantizar relacionamento abusivo? Na DC tem uma lista de estupro e violência contra a mulher que muitas vezes fica subentendido ou passa batido. É por que na HQ é assim que tem de ser sempre? Que a gente não pode reclamar? NÃO!
Reclamamos sobre a roupa da Mulher Maravilha nos novos 52. A calça que ela estava era mais harmônica com a história dela nas Hqs, e já falamos disso aqui. O surreal é que as mulheres gostaram, e tecnicamente somos o público alvo, mas os homens reclamaram e o que fizeram? Tiraram a calça e colocaram um biquíni com o collant por cima, nada de novo debaixo da terra do sol. No cinema, o Batman e Superman tem o corpo todo coberto, mas não, a guerreira não, vamos deixá-la de saia. E mesmo sendo uma homenagem aos uniformes usados em tempos gregos antigos, continua sendo sexualizado.

Quando reclamamos da forma que a Arlequina está sendo retratada nos trailers e Teaser de Esquadrão Suicida, estamos reclamando da forma que a personagem será lembrada na obra. O filme pode ser uma obra magnífica ou não, mas as cenas, os frames, as posições das câmeras estarão sempre lá. E se engana que é só a Arlequina. A personagem da Cara Delevingne, a Magia, está basicamente de biquíni. E ela é uma feiticeira!

Mesmo sendo uma personagem criada e modificada, a Arlequina sem dúvidas alguma é uma chance de mostrar um problema em que a personagem passou esses anos todos e conseguiu resolver. Ela é a preferida de várias garotas que esperaram muito para vê-la no cinema. Algumas dessas garotas gostaram de sua representação, outras não. E como todas as opiniões devem ser vistas e ouvidas, a Warner e DC precisam mesmo ouvir mais seus fãs. Adaptar um quadrinho para o cinema é tarefa difícil. O público não é o mesmo, os fãs estarão lá e quem não é também. A mensagem por trás de Esquadrão Suicida no que se refere a Arlequina pode  mudar a vida de muitas pessoas. Representação é coisa muita séria e por mais que não fiquemos ofendidos ou felizes com uma determinada coisa, principalmente no mundo Nerd, temos que entender a transformação do público consumista e da realidade em que vivemos.

Eu quero muito não precisar  sair do cinema hoje. Porém, infelizmente, com um diretor achando que o relacionamento entre Arlequina e Coringa é romântico e não levando em consideração a opinião da atriz sobre a roupa da personagem, nem a dos fãs, eu cada vez mais acho que não vou ver o filme todo, que vou ficar com raiva e receber ameaça – de novo.

Edit. Acabei de ver a capa da Revista solo da Arlequina no Rebirth da DC. A roupa é a mesma dos novos 52 e ainda precisa ser revista, entretanto, olhem bem pra essa capa. OLHEM para a mensagem que ela passa! Não preciso falar mais nada!

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O artigo é de total responsabilidade da autora e não representa necessariamente a opinião do veículo.

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